Na última semana, enquanto o governo americano impõe tarifas de 25% sobre o etanol brasileiro, comunidades do Rio de Janeiro enfrentam cortes no acesso à saúde. Essa não é uma coincidência, mas o reflexo de uma *soberania global* que serve apenas aos interesses dos países ricos enquanto os pobres pagam o preço.
A tensão entre interesses nacionais e pressões internacionais não é nova, mas ganhou contornos urgentes com as novas políticas tarifárias dos Estados Unidos. Enquanto isso, no Brasil, o SUS completa 35 anos como conquista social, mas enfrenta ameaças constantes de privatização e desmonte.
Contexto histórico
A questão da soberania nacional em saúde e meio ambiente sempre foi um campo de batalha entre países desenvolvidos e nações emergentes. O Brasil, por sua vez, historicamente tem buscado equilibrar suas políticas internacionais com a necessidade de atender suas próprias populações, especialmente as mais vulneráveis.
Desde a criação do SUS em 1988, o Brasil construiu um sistema de saúde universal, gratuito e de qualidade, que se tornou referência internacional. No entanto, essa conquista tem sido constantemente ameaçada por pressões internacionais e interesses econômicos que priorizam o lucro sobre o bem-estar social.
Análise notícia principal
A decisão do governo americano de impor tarifas de 25% sobre as importações brasileiras de etanol reacendeu o debate sobre soberania global. A Unica e Bioenergia, entidades representativas do setor, responderam que as tarifas seguem as regras do Mercosul, mostrando a incoerência de uma política protecionista disfarçada de defesa ambiental.
Essa medida, que pode ter impactos devastadores para o agronegócio brasileiro, ocorre num contexto em que o Brasil busca implementar seu planejamento ambiental de longo prazo, com metas até 2036. Enquanto isso, países desenvolvidos historicamente têm emitido emissões sem consequências, exigindo agora que nações emergentes pagem pela crise climática que não criaram.
Dados e estatísticas
Segundo dados recentes, o SUS atende a mais de 210 milhões de brasileiros, representando 75% das consultas médicas do país. No entanto, os investimentos em saúde pública representam apenas 3,9% do PIB, abaixo da média de 5,9% recomendada pela OMS.
No campo ambiental, o Brasil detém 60% da Amazônia, mas recebe apenas 12% dos recursos destinados à conservação florestal global. Enquanto isso, países como Estados Unidos e China, que historicamente têm maior responsabilidade pelas emissões de carbono, pressionam nações emergentes com tarifas e sanções econômicas.
Coluna Cidadania
Marina Costa — Cofundadora de ONG de educação em favelas, ativista social e consultora da UNICEF. Marina Costa é cofundadora e diretora executiva do Instituto Raízes do Amanhã, ONG que atua com educação complementar em 12 comunidades de favelas no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte. Formada em Serviço Social pela UFMG com especialização em políticas públicas pela FGV, começou como voluntária de reforço escolar na Rocinha aos 17 anos. Desde 2022 é consultora júnior do UNICEF Brasil para programas de juventude e participação cívica. Foi palestrante do Fórum Social Mundial 2024 em Nairobi…
Opinião de Marina Costa
Ontem, na favela do Alemão, uma mãe me contou que seu filho com diabetes ficou sem insulina por três dias porque o posto de saúde estava sem medicamentos. Enquanto isso, em Genebra, negociadores discutem tarifas que tornam nosso etanol mais caro nos mercados internacionais. Isso não é soberania global, é *colonialismo disfarçado*!
A verdadeira soberania não está em impor tarifas protecionistas ou em negar nosso papel na Amazônia. Está em garantir que cada brasileiro tenha acesso à saúde, à educação e a um ambiente saudável. O SUS é a maior conquista social do Brasil, e precisamos defendê-lo contra os interesses que querem transformá-lo em mais um negócio lucrativo.
Vi comunidades inteiras transformando suas escolas em centros de saúde quando o sistema público falha. Vi mães organizando cozinhas comunitárias para garantir a nutrição das crianças enquanto o governo corta programas sociais. Isso é soberania popular! Enquanto os poderosos negociam tarifas que beneficiam apenas seus bolsos, os pobres constroem alternativas concretas.
“Quem não pode gritar, escreve. E quem não pode escrever, luta. A soberania global não é um conceito abstrato, é o direito de cada povo decidir seu próprio destino.”
Informações práticas
Para entender melhor as questões de soberania global, é importante acompanhar as políticas públicas relacionadas ao SUS e ao meio ambiente. O Ministério da Saúde disponibiliza dados atualizados sobre o sistema de saúde brasileiro, enquanto o Ministério do Meio Ambiente oferece informações sobre as metas ambientais do país.
Cidadãos e cidadãs podem participar dessas discussões através de audiências públicas, conselhos de saúde e ambientais, e organizações da sociedade civil. A participação popular é fundamental para garantir que as políticas públicas atendam aos interesses da maioria, não apenas dos mais poderosos.
Além disso, apoiar organizações como o Instituto Raízes do Amanhã, que trabalham com educação complementar em comunidades vulneráveis, é uma forma concreta de fortalecer a soberania popular e construir alternativas aos modelos que priorizam o lucro sobre o bem-estar social.
A defesa da soberania global exige que reconheçamos que os desafios de saúde e meio ambiente são interconectados e que soluções justas devem considerar as responsabilidades históricas de cada país. Enquanto países desenvolvidos pressionam nações emergentes com tarifas e exigências ambientais, precisamos lembrar que a crise climática foi criada por eles.

